terça-feira, 30 de julho de 2013

Sinal vermelho para o trigo

Mesmo com aumento no plantio de trigo, que está com área 20% maior no Paraná, os moinhos vão continuar enfrentando escassez de matéria-prima. Após queda de 25% na oferta interna no último ano, as indústrias planejavam repor os estoques com a entrada da nova safra, a partir deste mês. Contudo, as geadas da última semana fazem produção recuar e prolongam o ciclo de preços elevados.

Antes da geada
“Expectativa era boa”, diz produtor Ainda contabilizando as perdas, o produtor Gilberto Peruzi acredita ser difícil salvar alguma coisa dos 280 alqueires de trigo, plantados na região de Londrina. “Uma parte tinha seguro, mas o prejuízo será grande. A expectativa era muito boa, agora, é roçar tudo e esperar para plantar soja.” O prejuízo, segundo Peruzi, não foi tão grande nos 580 alqueires de milho, que já estava em estágio avançado. “Um pouco vai perder, mas acho que uns 10% só. Acredito que o preço deve se manter, o milho já tinha bastante contrato.”

Período de preço alto será prolongado
Com uma valorização acumulada de 50% em 12 meses, as cotações do trigo vão continuar elevadas graças às geadas, avaliam os analistas. E as previsões são de novas ocorrências até setembro, com efeitos ainda mais graves para o trigo em estágio avançado. “Os preços que deveriam baixar com a entrada da nova safra, entre setembro e novembro, devem continuar elevados até o final do ano”, avalia Luiz Carlos Pacheco, consultor da Trigo e Farinhas. Elcio Bento, analista da Safras e Mercado, destaca que antes dos problemas climáticos o mercado já estava realizando ajustes. “Os negócios futuros estavam sendo feitos a R$ 750 a tonelada, mas o mercado hoje está em R$ 900 por tonelada”, compara. Essa alta busca, justamente, viabilizar a importação de trigo de regiões que também enfrentam escassez. Valor médio Entre julho de 2012 e julho deste ano, o valor médio da saca de 60 quilos saiu de R$ 25,81 para R$ 39,17 no Paraná. O movimento se repete no varejo, onde o quilo da farinha saiu de R$ 1,51 para R$ 2,07 no período, conforme a Secretaria Estadual da Agricultura e do Abastecimento (Seab). Bento destaca que como as indústrias repassam os custos, a alta gera reflexos sobre o consumo, pois “o mercado não consegue assimilar integralmente essa mudança”. A indústria da panificação afirma que os reajustes devem ocorrer em proporção menor nos produtos finais, que envolvem outros custos.
Os moinhos avaliam preliminarmente a quebra entre 25% e 30%, até 780 mil toneladas. O impacto maior deve ocorrer sobre as primeiras lavouras a serem colhidas. “Começa a haver um desespero no mercado. As empresas estão diminuindo a moagem”, afirma Marcelo Vosnika, presidente do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo). O risco é de a necessidade de importação recorde de 2013, estimada em 7 milhões de toneladas pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), ser ampliada a 8 milhões.
Uma sequência de fatores limitou a disponibilidade de trigo no Brasil. “Foi uma bola de neve”, resume Vosnika. Ele aponta que houve queda na área plantada pela Argentina, principal fornecedor externo. Na sequência, Paraná e Rio Grande do Sul, líderes na produção nacional do cereal, enfrentaram quebras na produção. Finalmente, com problemas na safra de milho, os Estados Unidos ampliaram o consumo de trigo.
Com pouca disponibilidade do produto na América do Sul, o governo brasileiro suspendeu a cobrança da Tarifa Externa Comum (10%), que incidia sobre todas as compras do cereal feitas fora do Mercosul. A medida, anunciada em abril, foi prorrogada sucessivamente e agora vale até o dia 31 deste mês. A Conab zerou os estoques públicos e lançou meio milhão de toneladas no mercado, mas os preços do produto continuaram elevados.
No Paraná, o valor da saca de 60 quilos está acima de R$ 42, patamar que fora atingido em 2008. O estado teve 52% das lavouras (490 mil hectares) expostos às geadas da última semana, conforme a Secretaria da Agricultura e do Abastecimento (Seab). Rui Marcos de Souza, gerente de suprimentos do moinho Globo, de Sertanópolis (Norte), avalia que o alto preço da matéria-prima é agravante para a indústria. Se eu precisasse de trigo hoje estaria muito preocupado”, relata.
Em Cascavel (Oeste), a cooperativa Coopavel aguarda o início da safra para definir a necessidade de importação. “Aumentamos a área plantada em 70% e, se faltar produto, nossa opção é importar da América do Sul”, afirma Dilvo Grolli, presidente da cooperativa. Elcio Bento, analista da Safras e Mercado, diz que importação deve aumentar, mas pode se limitar a 7,5 milhões de toneladas. "É preciso quantificar as perdas. Projetando uma quebra total de 500 mil toneladas devido às geadas, esse também deve ser o volume a ser importando", pondera.

Gelo atingiu áreas de floração
As lavouras de trigo mais prejudicadas pela geada foram as que se encontravam em fase floração ou frutificação. Cerca de 320 mil hectares ficaram expostos às geadas mais fortes, e outros 170 mil hectares foram atingidos pelas geadas moderadas, avaliam os técnicos da Secretaria Estadual da Agricultura. Os agricultores estão avaliando os prejuízos.
Em Foz do Iguaçu (Oeste), o agrônomo Roberto Sgarbossa, que monitora 500 hectares, conta que o plantio foi programado suportar geada em junho e não em julho. “Em 2012 sofremos perdas de 10%, mas neste ano calculamos quebra de 90%, se não de todo o cultivo”, aponta.

No Norte, o gerente técnico da cooperativa Integrada, Irineu Baptista, estima que 60% de 80 mil hectares de trigo foram afetados. “O trigo que seria colhido agora em agosto foi extremamente prejudicado”, avalia.

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